"Ser Psicólogo é como ter uma Netflix né?"
Reflexões sobre bons encontros.
PSICOLOGIA CLÍNICAESQUIZOANÁLISE
Alguns dias atrás uma paciente me disse: “Ser psicólogo deve ser legal, né? É como ter uma Netflix cheia de séries pra acompanhar”.
Isso ficou na minha cabeça, talvez não de forma tão positiva…
Em sessões, alguns analisando já me colocaram até mesmo na posição de “vigia da loucura”.
Agora estava aqui, como um telespectador atento.
É verdade que, na clínica, a gente acompanha temporadas inteiras de vidas que não são nossas.
Como diz um querido amigo escritor: “lembro de cenas inteiras de vidas que eu não estava presente e nem nunca vivi”.
Histórias que se estendem no tempo, personagens que sofrem, desaparecem, reaparecem.
Enredos que parecem girar em falso até que, quase sem aviso, algo muda, às vezes sutil, às vezes decisivo.
Mas tá longe de ser entretenimento.
Não dá pra maratonar.
Cada episódio vem no tempo possível de quem vive.
Não existe botão de pular abertura, de pular a dor, o silêncio, a confusão, as repetições…
Por isso, a clínica não é sobre assistir. É sobre embarcar.
Sentar junto nas encruzilhadas que aparecem pelo caminho daqueles personagens.
Estar ali como quem entra num barco sem ver o destino, de costas pra onde se vai, atento a quem rema.
O psicólogo não segura o remo, não escolhe o trajeto, não acelera a travessia.
Observa o ritmo, o cansaço, as pausas, os desvios.
Além de tudo, antes de qualquer intervenção, o que se oferece é presença.
Me animo a cada novo encontro, torço pelas pessoas que também apostam e oferecem a sua presença naquele momento.
E talvez, o mais bonito seja isso: torcer. Torcer por bons encontros, por movimentos possíveis, por finais menos cruéis, mesmo sabendo que nem toda temporada termina bem.
Isso me encanta nessa profissão, por mais cansativa que possa parecer ser: seguir junto, enquanto o outro inventa, ou reinventa, o seu jeito de remar.